Capítulo Um – Pedra Destemida
Décimo quinto dia do primeiro mês, Vila do Sul Celeste.
Numa pequena e decadente capela dedicada ao deus das montanhas, um adolescente de quinze ou dezesseis anos observava atentamente um bastão de bambu, salivando sem parar. No bambu, assava-se uma robusta galinha selvagem.
Esse jovem era conhecido na aldeia como Pedra Destemida. Na verdade, seu nome verdadeiro era Pedro, mas sua coragem em dizer e fazer o que pensa era tão notória que não só as crianças, mas também os adultos, admiravam sua audácia.
Alguns invernos atrás, uma matilha de lobos famintos chegou à aldeia, assustando os moradores a ponto de não saírem de casa, nem para buscar lenha. Pedro, com uma foice presa à cintura, subiu sozinho a montanha e sumiu por três dias e três noites. Quando todos já pensavam que ele havia sido devorado, Pedro retornou, trazendo à cintura a cabeça de um lobo caolho. Os mais velhos reconheceram de imediato: era o rei dos lobos. Desde então, a vila não viu mais lobos, e Pedro ganhou o apelido de Pedra Destemida.
“Pedrinho, minha mãe mandou trazer um bolo de lua para você!” Uma voz suave, como o tilintar de sinos, chegou do lado de fora da capela.
“Clarinha!” Pedro jogou a galinha assada sobre a mesa do altar e correu para fora.
“Num dia de festa, você não está em casa celebrando, mas sim aqui... O que está fazendo?” Pedro falou com uma seriedade forçada, mas não conseguiu evitar olhar para o meio bolo de lua nas mãos de Clara, engolindo em seco.
Desde os seis anos, quando seus pais saíram para cortar le